Esqueça o petróleo; o verdadeiro motor de instabilidade geopolítica deste século corre pelos rios e aquíferos subterrâneos. A transição da tradicional ‘geopolítica do carbono’ para a crescente ‘hidropolítica’ já é uma realidade palpável, com nações tratando o acesso à água potável não apenas como um direito básico, mas como uma munição estratégica de alto calibre. O que antes era tratado em conferências de saneamento agora ocupa o centro das mesas de inteligência militar, transformando bacias hidrográficas em tabuleiros de xadrez onde o controle da torneira pode significar a sobrevivência ou o colapso de populações inteiras.
O exemplo mais emblemático dessa tensão ocorre no Rio Nilo, onde a construção da Grande Represa da Renascença Etíope (GERD) colocou a Etiópia, o Sudão e o Egito em um impasse perigoso. Para o Cairo, qualquer redução no fluxo milenar do rio é encarada como uma ameaça existencial à sua civilização, enquanto Adis Abeba defende a obra como o motor de sua independência energética. Esse ‘braço de ferro hídrico’ demonstra como grandes projetos de infraestrutura civil tornaram-se ferramentas de negação de acesso, capazes de estrangular economias vizinhas sem que um único tiro precise ser disparado oficialmente.

Na Ásia, o cenário é igualmente dramático sob a influência de Pequim. A China, estrategicamente posicionada no planalto do Tibete, detém o controle das nascentes de rios vitais como o Mekong e o Brahmaputra, que abastecem o sudeste asiático e a Índia. Ao gerenciar o fluxo através de uma série de barragens em cascata, o governo chinês exerce um poder silencioso sobre a agricultura e a segurança alimentar de seus vizinhos, utilizando a geografia hídrica como um instrumento de barganha diplomática e pressão regional no coração do continente.
A crise é agravada por uma combinação explosiva entre o crescimento populacional acelerado e o impacto severo das mudanças climáticas, que estão redesenhando o mapa da escassez global. Dados do World Resources Institute indicam que um quarto da população mundial já vive em países com estresse hídrico extremamente alto. Esse déficit não gera apenas sede; ele atua como um multiplicador de ameaças, provocando fluxos migratórios sem precedentes e desestabilizando regimes políticos em regiões já vulneráveis, transformando a segurança hídrica em uma prioridade absoluta da segurança nacional.
Para evitar que a disputa pelo ‘ouro azul’ desencadeie conflitos em larga escala, a diplomacia internacional enfrenta o desafio urgente de criar novos tratados de cooperação transfronteiriça. O século XXI exige uma governança global que supere a visão de soberania absoluta sobre os recursos naturais em favor de uma gestão compartilhada e sustentável. Se no século passado as guerras foram travadas por fronteiras e combustíveis fósseis, a paz deste século dependerá diretamente da nossa capacidade de garantir que a água continue sendo um recurso de vida, e não um gatilho para a destruição.
Artigo: Jornalismo Rede Serra Azul


