Especialista explica que excesso de gordura abdominal interfere na produção hormonal e aumenta o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares
A relação entre obesidade e baixa testosterona tem chamado a atenção de especialistas devido aos impactos que pode causar na saúde masculina. Além de comprometer a disposição, a libido e a composição corporal, a combinação dessas condições pode favorecer o desenvolvimento de doenças metabólicas e cardiovasculares, formando um ciclo que tende a se agravar sem acompanhamento adequado.
De acordo com a endocrinologista Milene Guirado, a queda nos níveis de testosterona e o excesso de peso estão diretamente ligados. Segundo ela, a obesidade, especialmente quando há acúmulo de gordura na região abdominal, interfere na produção natural do hormônio. Ao mesmo tempo, a redução da testosterona contribui para o aumento da gordura corporal e para a perda de massa muscular.
“A testosterona baixa pode tanto favorecer o ganho de peso como também pode ser consequência da obesidade. Torna-se um círculo vicioso. Quando o homem ganha peso, principalmente gordura abdominal, essa gordura induz a produção de substâncias inflamatórias e hormonais que reduzem o estímulo cerebral responsável pela produção natural da testosterona”, explica a médica.
A especialista destaca que a testosterona desempenha funções importantes no organismo masculino, influenciando diretamente a massa muscular, a saúde óssea, o metabolismo e o gasto energético. Quando os níveis hormonais diminuem, o homem pode apresentar mais dificuldade para emagrecer, além de perda de força física e redução da disposição.
Recentemente, a condição conhecida como Hipogonadismo Funcional da Obesidade passou a ser denominada Síndrome MOSH (Male Obesity Secondary Hypogonadism), termo utilizado para definir os casos em que a obesidade masculina afeta a produção natural de testosterona.
Um estudo publicado na revista científica Nutrients aponta que o excesso de gordura corporal, principalmente na região abdominal, provoca alterações hormonais e inflamatórias que comprometem o funcionamento do eixo responsável pela produção do hormônio. Como consequência, o organismo tende a acumular mais gordura, perder massa muscular e desenvolver resistência à insulina, além de aumentar o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares.
A pesquisa também mostra que mudanças nos hábitos de vida podem contribuir para reverter esse quadro. A perda de peso, a prática regular de atividade física e a adoção de uma rotina mais saudável estão entre as principais estratégias para melhorar a produção hormonal.
Sinais vão além da saúde sexual
Embora a redução da libido e as alterações na função sexual estejam entre os sintomas mais conhecidos, a deficiência de testosterona também pode se manifestar por meio de sinais menos específicos.
Entre os principais sintomas estão fadiga frequente, dificuldade de concentração, perda de força muscular, sonolência excessiva, ganho de peso e sensação constante de indisposição.
“Existem sintomas mais característicos, principalmente relacionados à parte sexual, como diminuição da libido, da ereção matinal e disfunção erétil. Porém, também existem sintomas mais inespecíficos, como fadiga, dificuldade de concentração, perda de força, sonolência excessiva, ganho de peso e sensação constante de indisposição”, afirma Milene.
Segundo a endocrinologista, a gordura visceral — localizada na região abdominal — tem papel importante nesse processo. Isso porque ela contribui para a redução dos níveis hormonais e, ao mesmo tempo, é favorecida pela deficiência de testosterona.
“Obesidade visceral reduz testosterona, e testosterona baixa favorece mais acúmulo de gordura visceral. Forma-se um círculo vicioso que precisa ser quebrado. A gordura abdominal não é apenas uma questão estética. Ela está associada à inflamação, alterações metabólicas e aumento importante do risco cardiovascular”, ressalta.
Hábitos de vida influenciam diretamente no quadro
A médica explica que fatores como sedentarismo, alimentação inadequada, estresse constante e noites mal dormidas contribuem para a manutenção desse desequilíbrio hormonal e metabólico.
“Sedentarismo, alimentação ruim e estresse irão perpetuar esse ciclo de ganho de peso indefinidamente. O corpo precisa de movimento, alimentação adequada e sono reparador para funcionar corretamente. Quando esses pilares não existem, ocorre um desequilíbrio metabólico e hormonal progressivo”, afirma.
Segundo Milene, o tratamento deve ir além da reposição hormonal e considerar todas as condições associadas ao quadro.
“É um ciclo difícil de quebrar e exige decisão de mudança por parte do paciente e ajuda de um profissional habilitado para auxiliá-lo no processo. Muitas vezes é necessário tratar não apenas a questão hormonal, mas também a obesidade, o metabolismo, o sono, o sedentarismo e diversos outros fatores envolvidos”, explica.
Riscos à saúde e alerta sobre reposição hormonal
A deficiência de testosterona associada à obesidade pode favorecer o surgimento ou agravamento de problemas como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, gordura no fígado, osteoporose, apneia do sono e doenças cardiovasculares.
“A obesidade está associada a mais de 200 doenças. Como consequência desse círculo vicioso, podem surgir ou piorar quadros como síndrome metabólica, diabetes, hipertensão, apneia do sono, gordura no fígado, osteoporose e aumento do risco cardiovascular, incluindo infarto e AVC”, destaca a endocrinologista.
Nos últimos anos, a procura pela reposição hormonal masculina cresceu, especialmente impulsionada por conteúdos divulgados nas redes sociais. No entanto, a médica alerta para os riscos do uso sem indicação e acompanhamento profissional.
“Estamos falando de um hormônio que possui efeitos colaterais sérios quando utilizado de forma inadequada. A reposição hormonal de testosterona tem indicações específicas e não deve ser utilizada apenas por estética, ganho muscular ou performance”, afirma.
Ela também chama atenção para os perigos relacionados ao uso de substâncias adquiridas sem prescrição médica ou procedência confiável.
“Muitos homens conseguem essas substâncias por fontes duvidosas e utilizam sem qualquer controle médico. Os riscos são reais e vão desde infertilidade e lesão hepática até trombose, infarto e AVC, podendo causar sequelas graves e permanentes, ou mesmo levar a óbito”, alerta.
Por fim, a endocrinologista reforça que mudanças no estilo de vida continuam sendo a principal estratégia para melhorar a saúde hormonal e metabólica. Segundo ela, o problema tem sido observado cada vez mais cedo, inclusive entre adultos jovens e adolescentes.
“Até pouco tempo isso era mais comum em homens mais velhos, mas hoje estamos vendo muitos adultos jovens e até adolescentes com obesidade e baixa testosterona por hábitos de vida ruins. E isso é muito sério, porque a testosterona não está relacionada apenas à parte sexual. Ela também tem impacto importante na formação cognitiva, na disposição, na tomada de decisões e até na saúde óssea desses jovens”, conclui.


