Uma frase amplamente conhecida da escritora Margaret Atwood segue provocando reflexões ao redor do mundo: “Os homens têm medo de que as mulheres riam deles. As mulheres têm medo de que os homens as matem.”
A afirmação sintetiza uma diferença profunda entre as experiências masculinas e femininas em uma sociedade ainda marcada pela desigualdade de gênero. Enquanto muitos homens associam a rejeição, a crítica ou o constrangimento a ameaças ao próprio orgulho, mulheres convivem diariamente com preocupações relacionadas à própria segurança física.
Especialistas apontam que a construção social da masculinidade frequentemente estimula a associação entre poder, controle e validação. Nesse contexto, a recusa feminina pode ser interpretada por alguns homens como uma afronta pessoal, gerando reações que vão da hostilidade verbal à violência física.
Por outro lado, mulheres incorporam ao cotidiano uma série de estratégias de autoproteção. Compartilhar localização com familiares, evitar determinados trajetos, redobrar a atenção ao caminhar sozinhas e informar amigos sobre deslocamentos são práticas comuns que refletem uma preocupação constante com a própria integridade.
A disparidade entre esses medos revela um cenário preocupante. Enquanto o temor masculino frequentemente está relacionado ao abalo da autoestima, o temor feminino está ligado à possibilidade concreta de agressão, violência doméstica e feminicídio.
A discussão ganha ainda mais relevância diante dos números registrados em Goiás. Segundo levantamento divulgado pelas forças de segurança do estado, entre janeiro e 16 de junho deste ano foram registrados 42 casos de feminicídio. O dado evidencia que a violência letal contra mulheres permanece como um dos mais graves desafios sociais e de segurança pública no estado.
Mais do que estatísticas, os números representam vidas interrompidas e famílias devastadas. Também reforçam a necessidade de ampliar políticas públicas de prevenção, fortalecer mecanismos de proteção às vítimas e promover mudanças culturais capazes de enfrentar as raízes da violência de gênero.
Diante desse cenário, a frase que abre esta reflexão deixa de ser apenas uma provocação literária e se transforma em retrato de uma realidade que insiste em se repetir: enquanto alguns homens temem o constrangimento, muitas mulheres ainda convivem com o medo da violência extrema. E os 42 feminicídios registrados em Goiás apenas neste ano mostram que esse medo não é abstrato — ele tem fundamento nos fatos.


