Irregularidade no clima preocupa produtores do Cerrado e especialistas defendem adaptação para evitar perdas na safra 2025/26
O céu não tem colaborado e o reflexo já aparece no campo. A safra de soja 2025/26 começou mais devagar no Brasil, puxada principalmente pela irregularidade das chuvas no Cerrado, região que sustenta boa parte do agronegócio nacional — incluindo o norte de Goiás, onde produtores acompanham o calendário com apreensão.
Levantamentos da consultoria AgRural mostram que, no início de novembro, apenas 47% da área prevista havia sido plantada no país, contra 54% no mesmo período do ano passado. A principal causa foi a baixa umidade do solo em estados do Centro-Oeste e do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Mesmo com avanço gradual nas semanas seguintes, o atraso persistiu.
Só no começo de dezembro, após uma retomada parcial das chuvas, o plantio chegou a 94% da área estimada, ainda assim abaixo do ritmo registrado na safra anterior. A distribuição desigual das precipitações já preocupa técnicos e produtores, especialmente em regiões dependentes da chuva para garantir produtividade de soja e milho.
Goiás entre os estados mais afetados
Goiás aparece entre os estados com maior lentidão no plantio, vivendo um cenário comparado por analistas à safra 2017/18, lembrada como uma das mais difíceis do ponto de vista climático. No norte goiano, onde o agro movimenta a economia de cidades inteiras, o atraso pressiona decisões no campo e aumenta a incerteza sobre os resultados da colheita.
Dados do INMET reforçam o alerta: mesmo onde choveu, os volumes foram mal distribuídos e, em muitos casos, insuficientes para recompor a umidade do solo. O resultado é plantio fora da janela ideal e risco real de impacto na produtividade.
“O clima mudou, e o campo sente primeiro”
Para a engenheira ambiental Maristela Rodrigues, especialista em recursos hídricos e CEO da Four Ambiental, o cenário atual exige atenção redobrada.
“Estamos diante de um padrão de chuvas que foge do ciclo tradicional do Cerrado. Períodos longos de seca intercalados com chuvas fora de época reduzem o potencial produtivo e aumentam o risco de perdas”, afirma.
Além do clima, o bolso do produtor também sente. Relatórios de mercado apontam que o calor excessivo e a baixa umidade podem forçar replantios, elevando custos e pressionando o orçamento das propriedades rurais.
Adaptação virou questão de sobrevivência
Segundo Maristela, enfrentar esse novo cenário não depende apenas do produtor. “É preciso pensar em políticas públicas de adaptação climática. Crédito rural, por exemplo, deveria prever recursos para regularização ambiental e investimentos que ajudem o produtor a conviver com as mudanças do clima”, defende.
Ela alerta que o Cerrado é estratégico para o Brasil. “Sem crédito climático, seguro agrícola fortalecido e pesquisa em cultivares mais resistentes à seca, o país pode perder competitividade no mercado global”, diz.
O que pode ajudar no campo
Diante da incerteza, algumas práticas ganham ainda mais importância, especialmente no norte de Goiás:
– Monitorar chuvas com pluviômetros;
– Proteger nascentes e áreas de preservação;
– Investir em manejo hídrico e plantio direto;
– Produzir água na propriedade, com poços e barramentos;
– Adotar cultivares mais eficientes no uso da água.
“O produtor que planeja, acompanha o clima e cuida do solo constrói resiliência. Não é só sobre salvar a safra deste ano, é sobre garantir o futuro”, resume a especialista. Enquanto isso, no campo goiano, o olhar segue voltado para o céu — na esperança de que a chuva venha na medida certa e no tempo certo.


