Após morte encefálica, desejo manifestado em vida por Gyovanna Pereira mobilizou operação inédita na Santa Casa de Goiânia após 14 anos
A história da jovem Gyovanna Pereira, de 20 anos, comoveu profissionais da saúde, familiares e moradores de Goiás após a confirmação de sua morte encefálica e a decisão da família de autorizar a doação de seus órgãos. O gesto permitiu transformar a vida de ao menos quatro pessoas que aguardavam na fila de transplantes em diferentes regiões do país.
A captação múltipla de órgãos ocorreu na última sexta-feira (8), na Santa Casa de Misericórdia de Goiânia. Segundo a unidade hospitalar, foi a primeira cirurgia desse tipo realizada no hospital em 14 anos. Foram doados o coração, o fígado, os rins e as córneas da jovem.
Gyovanna havia sido diagnosticada em março deste ano com dermatomiosite, uma doença autoimune rara que provoca inflamação muscular e lesões na pele. Durante o período de internação, ela sofreu complicações clínicas e uma parada cardíaca, evoluindo posteriormente para morte encefálica.
Segundo familiares, a decisão pela doação respeitou um desejo que a jovem já havia manifestado em vida. A prima Érica Santos descreveu Gyovanna como uma pessoa afetuosa e preocupada com o bem-estar dos outros. “Ela sempre falava que queria fazer algo importante para as pessoas”, relatou ao portal Mais Goiás.
A operação mobilizou equipes médicas, profissionais da Central Estadual de Transplantes e a estrutura logística necessária para transportar os órgãos a diferentes destinos. O coração foi encaminhado para Brasília. Já os rins e as córneas ficaram em Goiás, enquanto o fígado foi destinado a um paciente no Acre.
O procedimento também emocionou profissionais do hospital. Antes da cirurgia de captação, médicos, enfermeiros e funcionários da Santa Casa formaram um corredor humano com balões verdes em homenagem à jovem e ao gesto de solidariedade da família.
Especialistas destacam que a doação de órgãos depende não apenas da autorização familiar, mas também de uma complexa estrutura hospitalar e logística. No caso do coração, por exemplo, o transplante idealmente precisa ocorrer em até três horas após a retirada do órgão.
Dados divulgados recentemente pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mostram que o Brasil registrou recorde histórico de doadores efetivos em 2025, com mais de 4,3 mil pessoas doando ao menos um órgão. Apesar do avanço, o país ainda enfrenta desafios relacionados à recusa familiar e à baixa taxa proporcional de doações em comparação internacional.
Para os familiares, o gesto de Gyovanna trouxe conforto em meio à dor da perda. “A gente entende que Deus respondeu dando quatro milagres para outras pessoas”, afirmou a prima da jovem.


