Captura do condenado reacende a luta por justiça no crime que chocou Goiás e silenciou uma das vozes mais críticas do rádio esportivo
O assassinato do radialista Valério Luiz, um dos crimes mais emblemáticos da história recente de Goiás, voltou ao centro do debate nesta semana com a prisão de Marcus Vinícius Pereira Xavier, conhecido como ‘açougueiro’. Condenado a 14 anos de prisão por participação no planejamento do homicídio, Marcus foi localizado e detido em Caldas da Rainha, em Portugal, onde vivia de forma regular e trabalhava na construção civil.
A prisão ocorreu após a justiça goiana expedir um novo mandado em novembro de 2024, determinando o recolhimento imediato do condenado para o cumprimento da pena em regime fechado. Desde então, Marcus passou a ser procurado, inclusive com difusão internacional. Segundo a Polícia Judiciária portuguesa, ele permanece detido e já passou por audiência, sendo informado de que a extradição para o Brasil deve ocorrer no prazo de 30 a 60 dias.
Ao g1, o advogado de defesa, Rogério Rodrigues, afirmou que a estratégia agora é tentar anular o júri que condenou o açougueiro. A prisão de Marcus não é a primeira: em 2014, ele já havia sido capturado em Portugal e extraditado ao Brasil. Em 2022, no entanto, a justiça revogou a prisão dele e de outros dois condenados. A situação mudou novamente em 2024, quando o Tribunal de Justiça de Goiás determinou o cumprimento da pena.
O crime
O crime aconteceu em 5 de julho de 2012. Valério Luiz foi morto a tiros quando deixava a rádio onde trabalhava, no Setor Serrinha, em Goiânia. Ele chegou a ser socorrido pelo Samu, mas não resistiu. À época, o Ministério Público apontou que o assassinato foi motivado pelas críticas duras e constantes feitas por Valério ao Atlético Goianiense, clube que tinha como vice-presidente o empresário Maurício Borges Sampaio, apontado como mandante do crime. Segundo as investigações, Marcus teria recebido R$ 9 mil para ajudar no planejamento da execução.
Além de Marcus, também foram condenados Maurício Sampaio (16 anos), Ademá Figuerêdo Aguiar Filho (16 anos) e Urbano de Carvalho Malta (14 anos). Ademá, ex-policial militar, foi o responsável por executar os disparos que mataram o radialista. Ele cumpre pena em presídio militar. Maurício Sampaio se apresentou à Polícia Civil em junho de 2024 e está preso na Penitenciária Coronel Odenir Guimarães, em Aparecida de Goiânia. Do grupo, apenas Urbano segue foragido.
O processo judicial teve idas e vindas. Em março de 2024, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou o júri popular que havia condenado quatro dos cinco réus, por falhas na condução de um interrogatório feito em 2015. À época, a família de Valério afirmou que recorreria da decisão, sustentando que o depoimento questionado sequer foi utilizado no julgamento.
Para a família, cada nova prisão representa um passo, ainda que tardio. Em 2022, dez anos após o crime, a irmã de Valério, Tamine Oliveira, desabafou sobre a dor prolongada. “Acho que nós só vamos ter paz quando eles realmente forem responsabilizados, mas a sensação que temos é de que eles nunca vão pagar”, disse na ocasião.
Desdobramentos
Agora, com Marcus novamente atrás das grades, a expectativa é que a extradição avance e que o caso, que atravessou mais de uma década entre investigações, julgamentos e recursos, tenha novos desdobramentos no Brasil. Para quem acompanhou a trajetória de Valério Luiz, a prisão não apaga a perda, mas reacende a esperança de que a justiça, mesmo lenta, ainda possa alcançar todos os responsáveis.
Valério Luiz era filho do também comentarista esportivo Manoel de Oliveira, o Mané de Oliveira, uma das vozes mais conhecidas do rádio goiano, que morreu em 2021, aos 80 anos. Mané teve mais de 50 anos dedicados à crônica esportiva e voltou à política após o assassinato do filho, sendo eleito deputado estadual em 2014.



