Tocantins

Juíza rejeita justificativa de mãe que mantinha filho trancado em apartamento: “Não há argumentos, não há justificativa”

Criança de 10 anos, encontrada sem acesso adequado a água e alimentação em Goiânia, chegou a ser internada na UTI com glicemia acima de 500; mulher teve prisão mantida pela Justiça

A Justiça manteve presa a mãe do menino de 10 anos encontrado trancado sozinho dentro de um apartamento no Setor Faiçalville, em Goiânia. Durante a audiência de custódia, a defesa da mulher alegou que a criança possui compulsão alimentar e que a restrição de acesso à cozinha teria sido uma medida para evitar o agravamento de seu quadro de saúde, já que o garoto é diabético.

A justificativa, no entanto, foi rejeitada pela magistrada responsável pelo caso. Ao analisar a situação, a juíza afirmou que não há argumentos capazes de justificar as condições em que a criança foi encontrada, especialmente pela ausência de acesso até mesmo à água.

“Caso ela não quisesse administrar alimentos ao mesmo, ela deveria, no mínimo, ter deixado água para a criança beber. Porque água não faz nenhum tipo de mal para diabetes. Então, a apresentada não tem argumentos. Não há argumentos, não há justificativa”, declarou durante a audiência.

Para preservar a identidade da vítima, os nomes dos pais não estão sendo divulgados, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Defesa alegou compulsão alimentar

Durante a audiência, o advogado de defesa, Danilo Rodrigues, sustentou que a mãe costumava deixar o filho trancado ao sair para trabalhar porque ele não teria controle sobre a alimentação e poderia consumir alimentos em excesso, agravando seu estado de saúde.

Segundo o defensor, a criança possui diagnóstico de compulsão alimentar associado à diabetes.

“Se deixasse a porta aberta, pela impulsividade que ele tem alimentar, que também está diagnosticada, ele não tem limites para parar de comer. Talvez agravaria ainda mais a situação dele”, argumentou.

A mulher foi autuada por abandono de incapaz, enquanto a Polícia Civil também investiga a possível prática do crime de maus-tratos.

Menino foi internado em estado delicado

Após ser resgatada por equipes do Conselho Tutelar e da Polícia Militar, a criança foi encaminhada ao Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad), onde permaneceu internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

De acordo com o conselheiro tutelar José Roberto Silva, o menino apresentava sinais de debilidade física e estava com a glicemia acima de 500, índice considerado extremamente elevado para um paciente diabético.

Após quatro dias de internação, a criança recebeu alta médica na tarde de segunda-feira (13). Segundo o conselheiro, o quadro clínico evoluiu de forma positiva durante o período de tratamento.

“Ele ficou em observação na UTI desde quando entrou no hospital por causa da taxa da glicose dele, que estava muito alta. A saúde dele está muito boa, já está até mais coradinho”, afirmou.

Após deixar a unidade hospitalar, o menino foi encaminhado para a residência da avó materna, que assumirá temporariamente seus cuidados enquanto o caso segue sob análise da Justiça.

Resgate revelou situação de abandono

O caso veio à tona na última quinta-feira (9), quando conselheiros tutelares resgataram a criança após denúncias. Conforme as investigações, o menino permanecia trancado em um quarto do apartamento, sem acesso adequado à alimentação e à água, utilizando uma garrafa plástica para fazer suas necessidades fisiológicas.

Imagens registradas durante o resgate mostram a criança conversando pela janela com os conselheiros tutelares. Durante o diálogo, ele relatou que a mãe saía para trabalhar durante a noite e o deixava sozinho e trancado diariamente.

Questionado sobre a alimentação, o menino informou que havia comido apenas algumas bolachas naquele dia.

Em outro momento, a criança pediu água aos conselheiros e utilizou uma sacola plástica amarrada a lençóis para receber uma garrafa pela janela do apartamento.

Segundo a Polícia Militar, a mãe afirmou que tomava a medida para impedir que o filho tivesse acesso a alimentos sem supervisão, alegando preocupação com a diabetes da criança.

Vizinhos relataram episódios recorrentes

Moradores do condomínio relataram que a situação já havia chamado a atenção anteriormente. A vendedora Loiana Kelly Brito afirmou ter presenciado episódios em que a mãe teria agredido a criança e contou que decidiu acionar o Conselho Tutelar após ouvir pedidos de socorro vindos do apartamento.

O síndico do prédio, Carlos Eduardo Freitas, também relatou o impacto emocional causado pela situação.

“À tarde, as crianças saem para brincar e ele fica interagindo com elas pela janela. É triste, machuca a gente”, lamentou.

Durante as diligências, a Polícia Civil constatou ainda que a criança não possuía condições adequadas para realizar necessidades básicas e encontrava-se exposta a situações de risco.

“Sem falar que tinham canetas de insulina, o que é muito perigoso para criança administrar sozinha”, destacou o delegado Eduardo Carrara.

Após ser resgatado e retirado do ambiente onde vivia, o menino resumiu em poucas palavras o desejo para o futuro:

“Eu espero ter uma vida melhor.”

João Eufrásio

About Author

Jornalista com experiência em comunicação pública e atuação na cobertura regional. Iniciou a carreira como assessor de comunicação entre 2022 e 2025, período em que trabalhou com produção de conteúdo institucional, relacionamento com a imprensa e organização de informações públicas. Em 2026, passou a atuar no setor privado como repórter da TV Serra Azul, com foco no levantamento, apuração e apresentação de notícias voltadas ao norte de Goiás. Seu trabalho acompanha o dia a dia da região, abordando temas de interesse local e buscando contextualizar os fatos de forma clara. Ao longo da trajetória, desenvolveu prática em diferentes formatos de comunicação e adaptação a rotinas diversas do jornalismo, mantendo atenção à clareza das informações e à relevância das pautas para o público.

Você também pode gostar

Imagem: Thaís Alcântara
Tocantins

Homem de 35 anos morre após batida em cruzamento no centro de Porangatu

Por Thaís Alcântara Envolvidos em acidente estavam sem carteira de habilitação, afirmou polícia. Cristiano Rosa Gonçalves de 35 anos morreu
Homem morre após bater violentamente motocicleta contra caminhão em São Miguel do Araguaia. Imagem: Corpo de Bombeiros
Tocantins

Homem morre após bater violentamente motocicleta contra caminhão em São Miguel do Araguaia

Por Deivianne Jhasper Com o impacto, caminhão pegou fogo em um cruzamento. Motociclista entrou para debaixo do caminhão. Rivadalve Castro